Nova Zelândia, Islândia e Japão conseguiram o que parece impossível a países como Brasil ou Estados Unidos: contiveram a epidemia do novo coronavírus. Não apenas achataram a curva de contágio, mas a esmagaram por completo. Que lições tais países tem a nos ensinar?

É verdade que os três países têm uma característica que os distingue: são ilhas, sem fronteiras terrestres por onde o vírus pudesse penetrar incógnito. Mas isso não explica tudo. A única fronteira terrestre da Coreia do Sul, com a vizinha Coreia do Norte, é talvez a mais fechada do mundo. A pseudo-insularidade não impediu o ressurgimento de casos nas últimas semanas. O mesmo aconteceu em Cingapura, outra ilha de fronteiras fechadas, embora mais próxima do continente.

O mais intrigante é que cada um dos três países adotou uma estratégia diferente contra o vírus. A Nova Zelândia implantou uma quarentena severa. O Japão jamais chegou a restringir o movimento de seus habitantes. O uso de máscaras se tornou praticamente uma norma entre os japoneses, mas é uma raridade entre os islandeses. Na Islândia, houve um rastreamento minucioso de contatos dos infectados e testes em massa na população. No Japão, nada disso foi implementado.

Cada país adotou uma estratégia própria. A neozelandesa seguiu o receituário canônico dos epidemiologistas. A premiê Jacinda Ardern implantou um dos lockdowns mais rigorosos do mundo. Desde o final de março, a população foi impedida de manter contato com qualquer um fora de casa por seis semanas. As fronteiras foram fechadas. Todo viajante era obrigado a ficar de quarentena.

A Islândia nunca chegou a implantar um lockdown, apesar de ter restringido atividades supérfluas, como danceterias ou salões de beleza. Ninguém foi obrigado a usar máscaras. Em vez disso, o país implantou um dos programas de testagem e rastreamento mais abrangentes do planeta. Até o dia 17 de maio, 15,5% da população islandesa havia sido testada, segundo reportagem na edição desta semana da New Yorker.

O exemplo mais enigmático é o Japão. Não houve lockdown nem quarentena. Não houve programa de testes em massa. Não houve o rastreamento sistemático de todos os infectados. Ainda assim, o número de casos diários caiu do pico de 743, em 12 de abril, para até 14 por dia no final de maio, de acrodo com reportagem na Science. Em um mês, os pacientes hospitalizados caíram de 10 mil para 2 mil. A estratégia japonesa se basou essencialmente no combate às aglomerações.

O Japão decidiu concentrar seus esforços nesses superdifusores. Descobriu que os principais centros de contaminação eram academias, bares, shows musicais, karaokês, restaurantes e eventos esportivos. A característica comum a todos é a aglomeração por longos períodos de tempo, com conversa ou cantoria.

O governo tomou medidas para que todos evitassem aquilo que, nas iniciais em inglês, ficou conhecido como 3Cs: espaços fechados, multidões e contatos próximos, com conversa cara a cara. Não foram descobertos focos de transmissão no transporte coletivo, onde a maior parte das pessoas fica quieta e passou a usar máscaras.

  • 229 visualizações