No contexto do centenário da Primeira Guerra Mundial, a mídia europeia evocou os 100 anos do acordo Sykes-Picot. Secretamente assinado em 16 de maio de 1916, o acordo decidiu a partilha das províncias árabes dos otomanos entre a França e o Reino Unido. Chamado de "o homem doente da Europa" pelo Czar Nicolau I em 1853, o imenso Império Otomano declinava desde o século 18.

Em 1916, os Estados Unidos ainda estavam fora da Primeira Guerra. Por isso, Paris e Londres davam as cartas na Europa, na África e no Oriente Médio, preparando a divisão dos territórios do campo adverso, formado notadamente pela Alemanha, a Áustria-Hungria e o Império Otomano. Terminada a guerra, a Conferência de San Remo (1920), detalhou o acordo Sykes-Picot. Londres ficou com autoridade colonial sobre a Palestina, a Transjordânia e a Mesopotâmia. Paris ganhou a Síria e o Líbano.

No pano do fundo da partilha havia um dado novo na economia mundial: a mecanização da guerra atiçara a cobiça franco-inglesa sobre o petróleo do Oriente Médio. Desde o começo houve trapaças europeias. A mais conhecida foi a enganação dos árabes, aos quais os ingleses e os franceses haviam prometido a independência caso lutassem contra os otomanos. O grande filme de David Lean, "Lawrence da Arábia" (1962) aborda este tema.

Pior ainda foi ainda a divisão, com fronteiras internacionais em linhas retas traçadas pelos colonizadores, de territórios povoados por comunidades unidas há séculos (como os curdos, cuja autonomia foi também combatida pelos nacionalistas turcos) ou a amarração num só país de gente desde sempre dividida por antagonismos religiosos (caso do Iraque). Sem contar as desastrosas manipulações francesas na Síria e inglesas na Palestina.

Boa parte dos conflitos que há décadas ensanguentam o Oriente Médio, gerando agora a dramática emigração que desequilibra a Europa, nasceram dos acordos Sykes-Picot. Obviamente os enfrentamentos religiosos, e em particular o antagonismo entre sunitas e xiitas, o fanatismo e a violência inter-étnica existiam na região muito antes de os europeus se interessarem pelo Oriente Médio. Mas as últimas intervenções ocidentais no mundo árabe aprofundaram as tensões criadas no final da Primeira Guerra, ficando patente que a invasão americana no Iraque (2003) gerou uma situação calamitosa e de desequilíbrio étnico e religioso.